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Músicas divinas (An American Trilogy).

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An American Trilogy é praticamente um pot-pourri que Elvis cantou ao longo dos anos 70. Ele nunca a gravou num disco, nem mesmo nas coletâneas gospel, tendo sido executada somente em shows!

Pot-pourri porque a canção é composta por trechos de outras três canções. Existe pouco material sobre a história dessa música e a maioria está no Wikepédia, mas sabe-se que a primeira parte faz referência a uma música popular americana chamada “I Wish I Was in Dixie”, que de certo modo está ligada a época de escravatura e guerra civil.

Por volta de 1850, quando “Dixie” foi escrita, o norte dos EUA crescia com a industrialização e os americanos se tornavam assalariados felizes, porém, o sul continuava com o trabalho escravo na agricultura… Tome nota: os negros só foram libertos de fato quando Lincoln proclamou a emancipação durante a guerra civil (lá em 1863)… É uma bagunça com muita história por trás.

Resumindo, “Dixie” não era bem vista (ou ouvida)  pelos flagelados da escravatura. A primeira frase que diz “eu queria estar na terra do algodão” deixa claro que somente os aristocratas nostálgicos gostariam de estar lá, os escravos que trabalhavam na colheita desse algodão jamais! Gosto de pensar também que é nesse trecho que é dado o pano de fundo da canção.

É com “Glory, Glory Hallelujah”, techo da canção “The Battle Hymn of the Republic”, escrita em 1861 por Julia Ward, que a apresentação começa a ficar mais espiritualizada. Julia foi uma ativista abolicionista e penso que talvez seja por isso que esses temas (escravidão e espiritualidade) estejam misturados em An American Trilogy. Esse trecho na voz do Elvis é mágico!

De compositor desconhecido, All My Trials empresta dois trechos para a última parte da música. O primeiro, do original, “…and don’t you cry, your daddy was born, just to live and die” virou “don’t you cry, you know your daddy’s bound to die“. Mesma idéia!

Gosto desse trecho que se segue na canção All My Trials e que não consta em An American Trilogy: “Oh I have a little book that sets me free. My bible, it spells Liberty“… Dá a exatamente a ideia de fé na liberdade que esse povo sofrido tinha.

Por fim, All My Trials e An American Trilogy se encerram com “But all my trials, Lord will soon be over”…  Um solo de flauta acalma os ânimos e sem seguida rufam os tambores, os metais dão a deixa para os trompetes que anunciam a elevação da música aos céus! Elvis destrói no refrão mais uma vez com glórias ao Senhor!

Viajei nessa última, mas a performance do rei é empolgante!

Enfim, o Wikiédia diz que essa canção ainda não teve todo o seu potencial descoberto e entendido, por isso gosto de interpretar como sendo essa mistura física (da labuta dos escravos) e espiritual (da fé na liberdade e num tempo de glórias). Escute, leia a legenda e aprecie… Até a próxima!

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Músicas divinas (Miss Sarajevo).

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Miss Sarajevo é um documentário idealizado e dirigido por Bill Carter, que no inverno de 1993 viajou para Sarajevo pra prestar alguma ajuda humanitária e rapidamente acabou no coração do conflito. De lá, Bill entrou em contato com o U2 que excursionava com a turnê Zoo TV e, pediu que a banda divulgasse para o público o que estava acontecendo na (antiga) Iugoslávia. Com essa ajuda ele conseguiu dar voz aos habitantes fazendo com que fossem ouvidos em tempo real pelo público do U2 nos estádios. Bill sentia que o mundo, de certa forma, ignorava essa guerra.

O documentário mostra os bastidores de um concurso de miss que aconteceu em pleno conflito. Em forma de protesto, mulheres organizaram o evento e desfilaram segurando cartazes com frases do tipo “Nós vamos derrotá–los com nossos batons e saltos” e “Vocês realmente querem nos matar?”… Isto era coragem pura e mereceu uma música.

Em um trabalho incrível, Bono Vox e Pavarotti criaram a famosa música “Miss Sarajevo”. Os dois cantaram juntos em 1995 para arrecadar fundos às crianças vítimas da guerra na Bósnia, e em 2003, se reuniram novamente para levantar recursos financeiros na ajuda aos iraquianos atingidos pela guerra.

Além de todo o apelo político da canção, Bono explica que a ideia por trás da letra de Miss Sarajevo também está um trecho do livro de Eclesiastes. O trecho lembra que há um tempo para tudo sob o céu… Sendo aquele o tempo de guerra, haveria um tempo de paz!

A bateria lenta, a voz cadenciada, a quase “falta” da guitarra do “The Edge” e o poder da voz do Pavarotti são traços únicos nessa música. Além do tom triste devido ao cenário em que foi inspirada, a canção passa uma bela mensagem sobre o tempo das coisas vividas, tais como: tempo de guerra e tempo de paz; tempo de esperança e tempo de desilusão; tempo de doença e tempo de saúde; tempo de ceticismo e tempo de fé!

Depois de dito tudo isso, uma das formas de interpretação que gosto é a de que apesar das dores que alguns desses ciclos possam nos trazer, eles não devem ser vistos como barreiras e sim como uma chance de aprendermos uma lição, e consequentemente crescermos como seres humanos. Da mesma forma que quando estivermos num tempo favorável podemos aproveita-lo para compreendermos que tudo realmente tem o seu tempo e propósito.

Curiosidade: O U2 foi a primeira banda a se apresentar na Bósnia desde que os conflitos se iniciaram, esse show aconteceu em 1997 no Kosevo Stadium durante a Popmart Tour.

Eis o capítulo de Eclesiastes que inspirou o Bono, como ele mesmo disse:

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer e tempo de morrer; Tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; Tempo de derrubar e tempo de edificar; Tempo de chorar e tempo de rir; Tempo de prantear e tempo de dançar; Tempo de espalhar pedras e de juntar pedras; Tempo de abraçar e tempo de afastar-se de um abraço; Tempo de buscar e tempo de perder; Tempo de guardar e tempo de jogar fora; Tempo de rasgar e tempo de coser; Tempo de se calar e tempo de falar; ” (Eclesiastes 3:1-7)

P.S.: Esse era pra ser um post com mais de uma música “divina”, mas acabou que não dava pra falar de Miss Sarajevo sem falar, mesmo que rapidamente, sobre a questão política sobre a música. No fim, acabou tão grande que não vou postar as outras aqui. E as outras (não vou dar spoiler pra não estragar a brincadeira) eu posto outro dia… Até!