Esse clássico dos anos 90, chamado por aqui de “Feitiço do Tempo”, é um filme de ficção cientifica com pitadas de filosofia disfarçado de comédia romântica. Bom, é com essa ótica que aprendi a gostar desse filme! Sempre estive certo de que existe uma visão mais profunda escondida em toda essa estrutura narrativa, existem significados que tornam o filme quase uma parábola moderna. Mesmo sendo um longa com mais de 20 anos!

Claro que se esse filme não tivesse sido “engraçadinho”, certamente nunca teria passado na “Sessão da Tarde”. Mérito do diretor e co-roteirista Harold Ramis!

Segue a premissa.

Contra sua vontade, o repórter Phil (Bill Murray) vai pra uma cidadezinha da  Pensilvânia cobrir um evento que pra ele é idiota demais. E ele está prestes a ficar preso em “Punxsutawney” (a cidadezinha) por conta de uma tempestade de inverno. Pronto!

… Apesar de não querer estar lá, de não querer ficar naquele inverno, suas frases sarcásticas e cheias de ironias mostram que ele vive um inverno dentro de si. Phil está disfarçando sua falta de interesse nos companheiros de trabalho e no trabalho. Ele só pensa em si, almeja algo, quer chegar, mas não está interessado na viagem … Eis que vem a tempestade de neve e Phil vê seu pior pesadelo virar realidade. Agora ele irá cobrir o “dia da marmota” e só conseguirá sair do lugar quando a tempestade passar!

No dia seguinte, quando Phil acorda no hotel, o apresentador no rádio diz algo como: “Está frio lá fora, pessoal”! Esse clima de inverno rigoroso dá o tom frigido na primeira parte do filme e a expressão do Bill Murray mostra que ele acabara de ouvir o óbvio do “rádio-relógio”! Ele queria ter acordado em outro lugar, mas sua sina será, no dia seguinte, acordar no dia anterior. Parado no tempo, está fadado a viver o mesmo dia infinitas vezes. Ouvirá a mesma frase do radialista e todos os acontecimentos seguintes se repetirão … É claro que o roteiro é o aspecto mais fascinante do filme. De fato, “Feitiço do Tempo” é um texto que brinca com o “espaço-tempo” e leva os espectadores a tirarem algumas lições morais e (por que não?) até espirituais. Indo mais afundo, dá até pra dizer que o filme consegue causar uma impressão radical e um tanto dolorosa sobre a vida… Pois imagine você naquele dia em que se encontra num lugar  que não é seu habitat natural, você começa a querer outro lugar, um lugar aconchegante e familiar. Imagine você num dia não tão legal, prestes a dormir esperando que o próximo dia seja melhor, daí você dorme e acorda no mesmo dia “não tão legal”. Phil só queria voltar pro seu habitat natural e provavelmente, ao partir, sequer  olharia para trás, porque não existem laços ou simplesmente não quis fazê-los. Bom, esse era Phil.

É com essa premissa que ao longo do filme vimos um Bill Murray “Nietzche”, que em certo momento, não vendo nenhum significado em acordar todo dia no mesmo dia, começa a cometer suicídio, todos os mesmos dias! Em outra hora um hedonista que se diverte fazendo o que quer na hora que quer… E numa das cenas mais legais do filme, ele é um politeísta (isso, crê em vários Deuses). A cena é ironicamente engraçada. Ele diz: “Eu sou UM Deus, não O Deus“! E assim segue, cada dia Phil acorda uma pessoa, com um pensamento diferente sobre o dia, quase que uma reencarnação diária (talvez uma alusão ao hinduísmo, sei lá).

Até chegar o último dia em que acordara no mesmo dia. E nesse último dia da marmota, Phil se torna parte da cidade, parte daquele habitat. Um membro querido que conhecendo o futuro, escolhe servir/ajudar os outros (uma pitada de altruísmo que nos remete ao cristianismo)! … E no fim da fita fica claro que a felicidade do personagem não está em agradar a si mesmo e satisfazer seus propósitos. E sim em agradar os outros. Em um único dia ele é capaz de fazer toda a cidade ama-lo. Ele não é mais o  egoísta do inicio que cumpre seu papel por obrigação, agora ele aprendeu a enxergar o que era invisível aos olhos. =)

A transformação de Phil começa no dia em que se apaixona por Rita. Tudo é diferente e as coisas da vida que não lhe eram importantes começam a fazer algum sentido, surge o amor que não estará ali quando ele acordar! É triste, mas ele ainda tem a vantagem de ter sempre mais um dia pra conhecer melhor Rita, porém, a cada novo velho dia ele tenta repetir o sentimento sem muito sucesso, as investidas soam superficiais, como se ele só estivesse falando o que ela gostaria de ouvir.

No fim, o primeiro dia apaixonado se repete ainda com mais amor, e quando eles se deitam, Phil acredita que assim que pegar no sono tudo terá sumido. Rita não estará lá, menos ainda o sentimento… Mas existe também o dia novo e ao perceber que não acordou novamente no dia da marmota, Phil diz  à Rita: “Sabe que dia é hoje? Hoje é amanhã!” – Logo em seguida emenda dizendo: “Tem algo que eu possa fazer por você, hoje?” – Rita responde: “Com certeza, deve haver alguma coisa”!

E assim sua transformação do egoísmo para o altruísmo está completa. Ao final, Phil sequer vê a neve como a coisa ruim que tornou aquele dia desolador. É o mesmo lugar, mesma neve, sob uma ótica diferente! Ele a vê com um certo brilho e beleza. Junto com Rita, ele tem uma nova visão de sua própria vida!

Moral da história? Deve ser algo como: “Ele aprendeu da maneira mais difícil, pois preso naquela cidadezinha, acabou concentrando seu dia em um momento. Suicídios matinais e trapaças pra conquistar Rita… Levou vários dias do mesmo dia pra perceber que não tinha sequer os ingredientes básicos pra conquistar ninguém… E foi assim que Phil finalmente entendeu um pouco mais sobre a vida, as pessoas, o amor. Foi ao renunciar seus próprios desejos para satisfazer os desejos dos outros que Phil finalmente se interessou por alguém, e fez alguém se interessar por ele. Ele não é mais  uma pessoa em busca de satisfazer exclusivamente suas necessidades. Ele começa a admirar aquela cidadezinha que uma hora odiou e no fim, ela o mudou a ponto de antes de subirem os créditos dizer alco como “Eu poderia viver aqui pra sempre”! É, agora ele é capaz de fazer daquele habitat, aquela pequena e peculiar cidade sua própria casa.”

PS: Isso não é uma crítica. Eu não li o que escrevi! Apenas lembrei de um filme que gosto muito e escrevi algumas bobagens que sempre pensei ao assistir!